Fins improváveis de escolhas planejadas
“E quase que eu me esqueci que o tempo não para nem vai esperar” (Vale ler ouvindo Vento de Maio, na voz de Elis)
Por vezes o instante nos faz esmorecer decisões perenes, deixando de lado o que a potência da palavra é capaz de criar. Nossas escolhas cotidianas, com seus efeitos borboletantes, que batem asas em dias de sol, debatendo-se em sinuosas curvas das vidas de outros, se esvaem sem sentido.
A solidão planejada em trajetos incertos nos traz essa paz do controle do mundo que nos cerca, como se nossos passos não colidissem com outros transeuntes. Marasmo programado do não deleite concretiza, a cada pisada, a ilusão da conquista. Olhar ao redor, imerso em um mundo coletivo e decidir não ver ninguém, a não ser a si mesmo espelhado em inúmeras solidões.
As palavras, agora sozinhas, são e serão vazias de si, só potência gasta em sola de sapato do caminho incerto. No marasmo da paz, com o suposto controle das etapas implementadas, sozinha a vida, se vai. Sozinha vira concreto, duro, ressecado, perene, infrutífero, voraz: consome nosso mundo e permanece cinza.
Em uma rotina que nos captura e isola, nos pagando com a falta de tempo, planejar vislumbrando quem está ao nosso lado é criar heterotopias prováveis em alívios dos momentos. É inventar dias que cabem em nossos amores mais invisíveis, com a coragem que se fortalece nos laços e abraços companheiros. Ainda que o receio nos envolva e embarace a vista, palavra vivida, tornada experiência conjunta, é a força que nos move coletivamente.
Não há vida só.

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