Sobre palavras e lágrimas
Eu escrevi este texto escutando My name is Trouble, a música é mais animada que - porém tão brega quanto - o texto e talvez por isso eu recomende ler escutando...
Dia desses eu comentei que falar de amor é mais tabu do que falar de sexo. [Eu falei “gostar de pessoas”, mas no fim foi só um jeito de impor um tabu ao próprio título e depois ter que lidar com isso…]
Acho interessante o quanto precisamos de rodeios às toneladas para conseguir proferir palavras que façam sentido, tenham linearidade e sejam justas com os sentimentos que brotam e se volatilizam pelos poros da pele. A mesma pele que conduz desejo, pode gerar fronteiras e repulsas estranhas, fria e distante forma de gerir diálogos importantes.
De qualquer forma, as palavras saem e vão encontrando seu rumo, alinhando-se nos cuidados necessários para proferir ideias abstratas de sentimentos que não são – e nunca serão – simultaneamente sentidos e compartilhados. Talvez a grande questão de falar do quanto sentimos, amamos, desejamos, é materializar uma abstração que reside em nosso corpo – em forma de desejo e idealizações.
Materializar é menos que assumir, porém é mais do que apenas sinapses que ocorrem e se vão, agitando o corpo, ansiando respostas. Toda dificuldade, me parece, é enfrentar o que é contraditório e contrassenso. É admitir que nossos sentimentos são nossos, mais sobre nós, do que sobre o outro ser. Difícil espelho, uma vez que o amar, ao fim do dia, é uma estranha construção que não é feita de materiais sólidos e robustos.
Pensando bem, construção é uma péssima metáfora. Emaranhados, com linhas e nós, formando redes e teias talvez seja mais apropriado. Gera tensão, tanto quanto espaço seguro. As vezes sufoca um pouco – as vezes aperta e enrola até sozinho – outras vezes nos mantém firmes em uma base móvel, ainda que em relativa estabilidade. Todavia, tem como desenrolar, formar novos nós, costurar com outras e novas linhas, com cores, formas e alinhavos.
Sei lá. Divagações de uma cabeça cansada – entre um choramingo e outro sobre palavras, linhas e amores – o que parece certo é que, à revelia dos tabus, sinceridade sem jogos ainda é um belo caminho sem volta. Não necessariamente seguro, claro. Contudo, mais tranquilo quanto às compreensões a partir da confusão das palavras. Já a estabilidade foi, é e será superestimada, uma dessas grandes mentiras que nos contaram em algum momento da vida, para acreditarmos que relações boas são perenes.
Não. Não são. Também não são fugazes, nem só tormenta. Relações são o que são: abstrações materializadas em desejos e palavras, pele e contato, gosto, gozo, carinho e confusão. E as vezes longas conversas com risadas e choramingos no meio.
No fim do dia, com sorte, tem um arrebol.