Notas não aleatórias

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Uma pausa no dia, a escritora paira na frente da tela em branco e sai escrevendo:
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entre uma frase
e outra frase
e outra frase
reside o sono e a saudade

respira
respira
respira
e a paciência [incomensurável] da garota
que sorri e range os dentes concomitantemente
enquanto pensa no que faz com o sorriso da saudade
e o sono e sua falta de vontade…
__

“A garota adora essa palavra: concomitante”. Para e pensa a escritora, divagando enquanto escreve a nota.
“E o garoto? Ele tem também suas palavras preferidas”. A escritora faz uma pausa, suspira fundo e ruidosamente: as palavras dele não constam no dicionário, mas ele insiste que são maravilhosas mesmo assim. Ela adorava pensar sobre as palavras, escrever sobre elas – existentes ou não.
“Onde parei mesmo? Ah, sim… No sono do garoto… o sono, este que encanta na simplicidade declarativa e irrita na falta de tempo do diálogo. Não, não! Paraste a escrita nos dentes rangendo da garota, enquanto pensava no sono – e no sorriso da saudade”.
Nessa altura, a escritora já desistira da poesia, da prosa, das linhas. Ela mesmo se sabotava o tempo inteiro – dispersando sorrisos em palavras inexistentes e diálogos caóticos [entre o sono e o desentendimento].
Narrava a garota sarcástica, que destilava veneno tentando mostrar descontentamento, narrava a incompreensão do garoto – por motivos inerentes e graciosos dele mesmo. Narrava o quanto se espantava pelo que sabia.
E sempre suspirava ao final da conversa…
– ok. Vai dormir.

Narrava, por fim, a si mesma ao longo da conversa. A verdade?
Faltava sono, mas não saudade.
toda
vez.