Empatia, morte de si e do outro
Andrew Martin, o Homem Bicentenário de Asimov dos idos de 1975, recebeu o título de “ser humano”. Ele só alcançou tal status após ligar seu cérebro positrônico em nervos orgânicos e, com isso, ser visto a partir do que nos é inerente: a morte.
Não é desejo, amor, ódio, tristeza ou alegria. Não é tesão, dor, sofrimento, êxtase. E termos noção da própria morte – segundo esta ideia de Asimov.
Esta noção é tão forte para Andrew, que supera a 3ª lei da robótica, em que um robô tem que proteger sua própria existência. Andrew, ao desejar ser humano apresenta o que é proteger sua existência em um momento ímpar deste conto: “apenas optei entre a morte do meu corpo e a dos meus sonhos e aspirações”. Morreu o corpo, permanecendo (e prevalecendo) o desejo, de forma ciente.
Há quem considere desejar a morte do outro um ato horrível.
Desejar a morte do outro é ato proveniente de raiva, amor, carinho, ódio, pena. É desejo. Latente e pulsante.
Em nada se compara à falta de empatia.
Empatia é sentir o sentimento do outro (ou de outros – plurais), buscar assumir seu(s) ponto(s) de vista, compreender seu(s) ato(s). Não há falta de empatia em um desejo movido pelos sentimentos anteriores.
A falta de empatia é descaso com a morte do outro. Em um ato de egoísmo total e completamente autocentrado, ensimesmado, não se importa ao ver, sei lá, 66.741 óbitos confirmados de uma doença, quando ainda há outras tantas mortes suspeitas por falta de testes, leitos, condições, protocolos. Ou, ainda, há mortes e exposição por falta de ações específicas que salvariam milhares de fome e frio, em meio a uma grave crise sanitária: só por descaso. Falta de empatia é não se importar, olhar, ver morrer e perguntar: e daí?
O Desejo pela morte – por dor ou livramento, por raiva ou carinho, por ódio ou amor – tem, como fonte primária, empatia. Se não pelo ser que objetificamos como desejosos de sua morte, por todos os que eventualmente se salvariam pela morte deste primeiro, ou de toda a dor que ele causa.
O descaso pela morte, caros amigos, esta sim carece de empatia.
Retira do outro a dignidade mínima de ser reconhecido a ele o que o torna humano – a única certeza, o que nos faz dar sentido aos nossos dias, nossas lutas, nossos risos, nossos passos. É o significado último.
Ignorar este momento como o que nos torna humanos é o auge da falta de empatia, ignora nosso momento mais certo e involuntário. Ignora, junto, tudo pelo que vivemos antes.
Se nada de nossa vida importa, nem mesmo o tempo, a dor e a leveza de nossa morte, é por nos retirarem tudo o que temos de humanidade.
Não é falta de empatia desejar morte. Falta de empatia é ignorá-la, obtendo ganhos próprios pelo amontoado das carnes sem nome, nem destino. Nada pode ser pior do que o descaso com a morte daqueles que têm desejos e aspirações, com a vida, a carne, o corpo que pulsa e luta por estes desejos, para validar seu próprio eu, como se nada mais valesse.
É pela morte sem descaso que lutamos, é pela vida com desejos que seguimos vivos, sabendo de nossa finitude.
E é pela empatia que temos balizado toda a dana voraz em dizer tudo o que temos dito.
É por nos saber findáveis que temos questionado as ações com todos aqueles q tem sido roubados de sua possibilidade de serem considerados humanos por serem usurpados não da possibilidade da morte, visto que é nossa única certeza, mas por irem para valas comuns misturando-lhes os desejos, embaralhando seu teor, ignorando suas singularidades, em vida.
(Até um robô deveria saber disso)