Sobre a infância

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Dizem que ela, quando criança, pouco se interessava pelo que ocorria de importante ao seu redor, pois nunca sabia responder à simples e rotineira pergunta:
“O que aprendeste na escola hoje?”

A garota, no entanto, sempre achava que as perguntas é que eram desinteressantes ou, até mesmo, erradas.

Qual a importância de saber o formato da letra “A” e todo o movimento da sua mão, necessário para executar a extenuante tarefa de delinear repetidas vezes a mesma e monótona letra, em linhas que limitavam tamanhos e ritmos?

A vida, pensava ela, era feita de observar minúcias em pequenos acontecimentos diários. Desligar-se das minúcias para desenhar voltas e mais voltas de letras lhe parecia um modo preciso de perder-se da vida.

E, para ela, o deleite de atentar-se às minúcias, meus caros, nunca poderia ser perdida!

Ela era tímida e, na dúvida, preferia sempre aquietar-se e observar.

Como não atentar-se ao colega Rafael, desajeitado e com espinhas no rosto desde criança, que sentava-se duas carteiras à sua frente e apontava o lápis metodicamente, em busca de um traço fino constante e perdia mais tempo cuidando a espessura do traçado do que da quantidade e qualidade das letras escritas?

Ou Fernanda, também quieta que sentava-se ao seu lado, e estava sempre com um cabelo bem penteado e usava uma presilha perfeitamente ajustada na franja e permanecia intacta durante toda a manhã? Ela achava incrível como sua colega mantinha o caderno impecável, com todas as tarefas feitas caprichosamente e no tempo solicitado pela professora!

E, claro! O Vinicius, de fartas bochechas e cabelo cortado com uma franja irretocável, que para fugir das atividades, andava pela sala contando as mais variadas histórias de suas grandes aventuras esportivas frustradas do final de semana. Histórias essas tão engraçadas que a professora, eventualmente, cedia aos ímpetos de manter a ordem e acabava rindo junto com a turma.

Ela passava muitos e longos segundos olhando cada minúcia e o que destoava em dias específicos.

Dizem que, quando criança, ela chegava ao final da manhã com seu caderno vazio de letras e a mente entulhada de detalhes rotineiros, inesperados e nunca interrogados.

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