“eu avisei”

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“Eu avisei”, “a gente falou”, “eu te disse” seguem sendo palavras arrogantes e que só mostram nosso orgulho ferido por não terem prestado a atenção em nós.
Supondo que estamos certos na maior parte do tempo (e pelo tempo que nossa certeza tiver validade, tendo em vista que nos pautamos em ciência e que podemos repensar o que falamos hoje com base em novos dados, premissas, hipóteses, etc.), seguir tentando comunicar o que temos comunicado é um ato de resistência, o que não quer dizer que seja efetivo, nem que estejamos furando as bolhas (ou as bolhas certas).
Dizer “eu te disse” é lavar as mãos e dar por encerrada a questão, é tirar pra ignorante quem não está nos compreendendo e, mais do que isso, é nos colocar no patamar de quem fala claro e límpido para todos, o que está longe da realidade.
Se a divulgação científica e a educação em ciências não se colocarem em um patamar de humildade e começarem a olhar seu umbigo e ver que tá na hora de repensar e ter um pingo de decência e sair desse postinho de arrogância, de nada adianta estarmos certos. Pois o nosso erro é o mais basal de todos.
Enquanto não olharmos para nós e percebemos que somos, como classe ou grupo social, quase todos homens, quase todos brancos e quase todos de classe média (alta) e não tivermos o mínimo de noção de que só por isso não atingimos uma imensa parcela da população por falta de representatividade e falta de compreensão de outras realidades, de nada adianta estarmos certos. Pois estamos errados por não olharmos nossos limites.

Melhoremos, todos nós. Há que olharmos para as diferentes realidades. 

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