sobre políticas públicas e corpo
A gente tá vendo uma discussão sobre implementar política pública de abstinência sexual na adolescência para aumentar a média etária da iniciação sexual como combate à pedofilia. Tá vendo no discurso da ministra a culpabilização do corpo das meninas e ouvindo que toda a política não terá custo para o governo e é só “falar para as jovens esperarem um pouco”. Tá vendo um debate que combate IST e gravidez a partir da premissa de que “falar pra não fazer nada” adiantará e isso é promoção de saúde na adolescência.
E a esquerda brasileira lacrando na internet rindo de meme “a que ponto chegamos em que se a gente transa é de esquerda”.
Falhamos miseravelmente na capacidade cognitiva de nos comunicarmos e debatermos seriamente os problemas sociais, da nossa juventude, das minorias.
Não consigo achar graça em uma política que culpabiliza ainda mais o corpo feminino, retirando-o, mais uma vez, da lógica do prazer e colocando-o numa roupagem mal enjambrada de proteção às jovens quando se quer, de fato, aprisioná-las das possibilidades de compreender seus corpos e suas vidas. “Escolher esperar” o quê? Que escolhas estamos possibilitando sem diálogo?
Como não virar mais um projeto de culpabilização das meninas e das mulheres que, sem informação, engravidam e contraem doenças (se a política fala de não transar, quem transa e tem questões de doença e gravidez decorrente disso, tem mais culpa ainda nas costas!).
Mas tá tudo bem se lacrar nas redes já tá tudo certo na vida.
Bora rir que a semana só começou e esse ano promete.
[poesia de Bell Puã, do livro “Querem nos calar: poemas para serem lidos em voz alta; organizado por Mel Duarte]
