Não há paz
Eu escrevi este texto escutando Tempo de Amor, do Baden Powell. Recomendo ler o texto escutando o som 🙂
“Estamos a zero dias sem paz aqui dentro de nossa cachola
Nosso recorde é de zero dias sem paz dentro da cachola”
Que o mundo não tem paz, de nada nos surpreende. Enquanto seres humanos seguirem classificando uns e outros em caixinhas delimitadas, por critérios inventados e tomados como essências, haverá não apenas diferença, mas segmentação e construção de muros intransponíveis – que depois serão narrados como desigualdade inata de indivíduos (qualquer semelhança com a realidade não é mera coincidência e podem ser encontradas explicações em teorias econômicas, filosóficas e biológicas que se baseiam em supostas estruturas da natureza – risos, de nervoso e de raiva).
De qualquer modo, claro que minhas questões de hoje são sobre os dias de paz dentro do mundo das ideias – as minhas, no caso. As do mundo, infelizmente, não tenho condições de dar conta delas hoje (nem sozinha, mas vou falar disso também).
O mundo das ideias, que habitam a minha cachola, talvez fosse possível aquietá-las de algum modo. Mas sabemos bem como as turbulências ocorrem. Quando parece que estamos em uma temporada de calmaria, na verdade acho que é apenas anestesia. Como que se o corpo desse um tempo para descansarmos enquanto o caos vai crescendo pelas beiradas.
Sempre que se inicia um semestre, é no caminho da paz que eu busco meus planejamentos de trabalho, de rotina, prazeres e afazeres. Porém, é no aparente caos que encontro a proliferação do que me move no mundo… Já dizia Baden,
Ah, bem melhor seria
Poder viver em paz
Sem ter que sofrer
Sem ter que chorar
Sem ter que querer
Sem ter que se dar
Não. A paz não é para nós, corpos inconformes. Quem tem ideias incessantes e insensatas, que se confrontam com os acontecimentos cotidianos que se escapam de nossas condições de resoluções. Quem mirabola vidas plenas, enquanto respira, não tem – nem terá – paz.
Mas tem que sofrer
Mas tem que chorar
Mas tem que querer
Pra poder amar
Semana passada, vi Bianca Santana falando que à revelia da opressão a vida acontece e segue acontecendo. E foi uma fala tão bonita, quanto potente e extremamente interessante. Pois é a partir de diálogos assim que vamos nos lembrando que não é exatamente o lugar da paz que deveríamos buscar. Mas o espaço da construção, das heterotopias que se constituem compartilhadas, materialmente e simbolicamente.
E isso está bem longe de uma idealização ingênua. Que não nos enganemos… Passa léguas e léguas de distância de discursividades meritocráticas cafonas e predatórias de nosso tempo e de nossa vida.
Ah, que não seja meu
O mundo onde o amor morreu
Ah, não existe coisa mais triste que ter paz
E se arrepender, e se conformar
E se proteger de um amor a mais
E se arrepender, e se conformar
E se proteger de um amor a mais
O mundo se faz do tempo vivido, do suor do prazer, da turbulência dos conhecimentos produzidos na inconformidade, do amor – que está longe de ser paz e mesmice.
A vida se faz e refaz, enquanto a truculência passa.
Texto inspirado na falta de paz da minha cachola, na música Tempo de Amor (Baden Powell) e na fala do Café Filosófico com a Bianca Santana – e seus últimos textos (que podem ser lidos aqui e aqui).