Não há paz

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“Estamos a zero dias sem paz aqui dentro de nossa cachola
Nosso recorde é de zero dias sem paz dentro da cachola”

Que o mundo não tem paz, de nada nos surpreende. Enquanto seres humanos seguirem classificando uns e outros em caixinhas delimitadas, por critérios inventados e tomados como essências, haverá não apenas diferença, mas segmentação e construção de muros intransponíveis – que depois serão narrados como desigualdade inata de indivíduos (qualquer semelhança com a realidade não é mera coincidência e podem ser encontradas explicações em teorias econômicas, filosóficas e biológicas que se baseiam em supostas estruturas da natureza – risos, de nervoso e de raiva).

De qualquer modo, claro que minhas questões de hoje são sobre os dias de paz dentro do mundo das ideias – as minhas, no caso. As do mundo, infelizmente, não tenho condições de dar conta delas hoje (nem sozinha, mas vou falar disso também).

O mundo das ideias, que habitam a minha cachola, talvez fosse possível aquietá-las de algum modo. Mas sabemos bem como as turbulências ocorrem. Quando parece que estamos em uma temporada de calmaria, na verdade acho que é apenas anestesia. Como que se o corpo desse um tempo para descansarmos enquanto o caos vai crescendo pelas beiradas.

Sempre que se inicia um semestre, é no caminho da paz que eu busco meus planejamentos de trabalho, de rotina, prazeres e afazeres. Porém, é no aparente caos que encontro a proliferação do que me move no mundo… Já dizia Baden,

Não. A paz não é para nós, corpos inconformes. Quem tem ideias incessantes e insensatas, que se confrontam com os acontecimentos cotidianos que se escapam de nossas condições de resoluções. Quem mirabola vidas plenas, enquanto respira, não tem – nem terá – paz.

Semana passada, vi Bianca Santana falando que à revelia da opressão a vida acontece e segue acontecendo. E foi uma fala tão bonita, quanto potente e extremamente interessante. Pois é a partir de diálogos assim que vamos nos lembrando que não é exatamente o lugar da paz que deveríamos buscar. Mas o espaço da construção, das heterotopias que se constituem compartilhadas, materialmente e simbolicamente.

E isso está bem longe de uma idealização ingênua. Que não nos enganemos… Passa léguas e léguas de distância de discursividades meritocráticas cafonas e predatórias de nosso tempo e de nossa vida.

O mundo se faz do tempo vivido, do suor do prazer, da turbulência dos conhecimentos produzidos na inconformidade, do amor – que está longe de ser paz e mesmice.

A vida se faz e refaz, enquanto a truculência passa.